Ode à amizade ou desde que me fui.
passou desde que
sai daí, da Bahia, terra do meu Bahia e da Fonte Nova,
essa terra nossa;
desde que saí daí as coisas tem sido assim, bem diferentes.
Ao norte, bem ao norte, nosso país tornou-se o sul, bem ao sul, de um
outro país belíssimo como o nosso e que muito, muito mesmo parecia o
nosso.
Encontrei na Venezuela
pessoas muito boas, de terno coração não porque
teríamos dinheiro – até porque não tínhamos –
mas porque é parte deles; como é parte do nosso povo também.
Isso em sua
maioria,
porque não se pode julgar quem quer que seja sem conhecer direito;
as primeiras impressões são, muitas vezes,
falsas.
E sei disso porque já lá do outro lado; depois de montanhas,
Tepuyes
em fato;
de cachoeiras e aldeias indígenas,
Kumarakapay, Kumará, pássaro branco de colar avermelhado;
depois de águas cristalinas e pelicanos,
uma imagem de Iemanjá na baía em Mochima e uma argentino maluco
chamado
Álvaro,
que de tão boa gente que é, vai ter para sempre
um amigo;
de repente nos vemos; porque não? Então;
já lá do outro lado a situação parecia preta para o
nosso lado!
Uma travessia noturna num Ford 1953; ou 1954; não mais que 1960;
bem bonito o carro. Bem suspeito o dono; muito cara-de-pau a barganha
e a quinta parte de um acordo em troca de um estranho; um qualquer
numa esquina qualquer de San Cristobal.
Ali na Fronteira;
ou quase na fronteira; nos separava da Ponte Símon Bolívar uma
montanha.
Encontramos nosso estranho numa esquina qualquer e subimos
a montanha em meio à escuridão.
Becos, vielas, como em nossas
favelas
subíamos sem que ninguém pronunciasse
uma palavra que fosse. O estranho dormia sob olhos vigias do meu
amigo acordado.
Eu empunhava a faca e pensava se de fato teria
a coragem
necessária; ou a estupidez tamanha;
de fazer qualquer coisa.
Mas empunhava a faca atrás do motorista.
De repente,
um papo:
- Colômbia perdió un partido amistoso contra Sudáfrica ayer…
- Como é?
Pois é. Dali Copa vai, Venezuela vai, Colômbia vem e depois de uma
parada estratégica
para vender gasolina contrabandeada estávamos em
Cúcuta. E no fim saiu tudo bem; e a primeira impressão era
falsa.
Dali para Bogotá seriam dezoito horas; a princípio as montanhas
eram tão bonitas quanto amedrontadoras; à medida que subia cada
metro dos doismileseiscentos
metros acima da praia mais próxima,
o precipício ao lado
e
bem
abaixo
dava mais medo;
e foi aí que veio a noite e engoliu tudo:
montanha, precipício e qualquer lembrança do mar;
chegávamos a Bogotá.
E de cara ganhei um
amigo;
um desses que vai comigo para toda a vida;
Ricardo nos alojou por três semanas como se fôramos
mais dois em sua grande e afável família. Kalil, seu pai; decerto um dos
homens interessantes, com valores sólidos a ter como
exemplo,
que conheci em minha vida.
Em Bogotá já são quase três meses e muito,
muito mesmo já aconteceu. Muitas farras, garotas
belas e interessantes de nações distantes;
distantes como o Egito, terra de Tamer Ahmed;
o lutador de boxe que se tornou um grande
amigo
de pronto; no primeiro round.
E também há uma cadela; Lola!
Volta e meia saio com Lola para passear pela manhã;
nada muito demorado, duas calles e na padaria
Seu Pedro nos vende o pão
e a perra e eu
voltamos para casa dividindo um croissant.
Nada mal.
Mal foi o assalto; pois é, fomos roubados; ou melhor eu vi tudo
do outro lado da rua; assustado.
Ele e ela eram abordados por cinco malandros ali
e eu aqui buscava a polícia mas não tinha;
típico da polícia em qualquer canto;
estão sempre no lugar
errado.
Desta vez não era eu que
empunhava a faca
e a faca estava no pescoço do meu amigo ali;
e a mocinha da terra dos cangurus teve suas memórias
subtraídas na memória da sua máquina.
Alex, a mocinha, vai comigo para onde eu for;
mais uma dessas coisas que nos acomete desde pequenos:
amizade.
E de tudo o que se passou; afora a saudade enorme
da minha
mamãe e dos meus irmãos; da minha família;
depois de tudo o que se passou, só uma coisa me faz falta:
meus amigos; meus degenerados amigos;
a família que eu escolhi.
Amo vocês.
sobre isso
É sobre esta viagem que vamos falar; é sobre o desejo desta viagem;
desejos distintos; duas pessoas, uma viagem;
muitos desejos
transitam, dialogam, correm, saltam e mergulham em nós;
espírito; coração selvagem.
É sobre esta viagem que vamos falar; é sobre o ensejo desta viagem;
do momento exato; nem antes, nem depois.
Para onde vamos;
onde estamos quando de longe viemos;
o que a terra sugere ao espaço; o que acontece a cada
passo.
É sobre isso que vamos falar;
sobre isso que vamos.


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