Se me permitem começar
É difícil definir quando a viagem começou. Se foi naquele dia de frente para o mar. Se foi no arrependimento. Se foi na vontade insustentável de querer andar. Se foi no medo por se tornar aquilo que não se deseja. Se foi na coragem de se tornar aquilo que se quer. Por isso vou começar de um ponto aleatório, escolhido avulso, e talvez no decorrer se encontre o começo, se encontre onde a viagem havia começado. Mas esse texto vai começar de
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Boa Vista, Roraima.
A cidade em si não marcou muita coisa. Como dizem os indígenas venezuelanos que conheceram essa cidade brasileira: é muito plano, não tem muito que ver. Mas sucede que os encontros e desencontros começaram aí. Conhecemos um casal de viajantes com uma história apaixonada. A viagem deles começa no amor. Ele, de aparência circense e com um bigode que parecia descrever a sua personalidade, como o figurino de um personagem de teatro, tocava o seu violão. Ela, com o seu olhar da alma e seus cabelos trançados, tocava o sax. Foi o maior banho de boas energias, acredito, que tivemos até agora. Nos mostraram em si mesmos as belezas de uma vida na estrada. Nos falaram que existe muito medo, e que as pessoas sempre dizem de um perigo sombrio, mas que, quando as coisas acontecem, é pura magia. Posso garantir que se segue isto.
Não dá para trazer as pessoas que não vieram com a gente, não é possível narrar todos os fatos em seus pontos mínimos, mas atravessamos a fronteira, nos despedimos de Pablo e Érika e ficamos em Santa Helena de Uairén.
É uma pequena cidade, mas que nos serviu de base. É muito fácil conseguir carona no sul da Venezuela e assim conhecemos alguns lugares. Logo no primeiro dia na Venezuela as cifras venezuelanas nos preocuparam quanto ao que mais tarde se tornaria um entrave no nosso primeiro mês de viagem. Enquanto assistíamos ao pôr-do-sol no rodoviária e avaliávamos os custos das passagens, ouvidos e olhos atentos sondavam nossa preocupação. Ela tinha os cabelos negros, um jeito bem simples e esquecido e carregava consigo pouca bagagem. Podia-se notar que ela sabia o que estava fazendo e que viajar era para ela um exercício de destreza. Amandine, se chamava, nos disse de como poderíamos viajar pagando pouco e os lugares que poderíamos descobrir. E foi seguindo os conselhos dela que chegamos `a aldeia indígena de Kumarakapai.
É uma viagem curta, e nas paradas da revista militar os soldados zombam do nosso mal espanhol. Mas logo nos tornaríamos peritos em entender o que falavam pois convivemos com o sotaque indígena por algum tempo. Se alguns falavam rápido de mais e sempre sorrindo, outros mal diziam palavras e se expressavam quase que inteiramente com gestos e murmúrios. Passamos quase todo o dia ao lado do irmão do cacique e sua agradável família enquanto aguardávamos por uma carona que não chegou.
Assim conhecemos um pouco da vila, nos abrigamos da chuva e tomamos um café pela noite. Presos pelas condições climáticas e por não conseguir carona, fomos bem recebidos na pequena pousada de um parente do nosso cicerone. Aí conversamos um pouco e nos organizamos para dormir na parte externa da casa, onde poderíamos estender nosso saco de dormir e passar a noite.
O clima sereno foi cortado por uma voz que falava em uma língua indefinível (os indígenas de Kumarakapai falam 7 línguas, português, espanhol, inglês e mais 4 línguas indígenas) nos alto falantes espalhados pela vila. Sem entender, pedimos explicações. A forte chuva havia elevado muito o nível do rio e agora algumas das casas na margem estavam alagadas.
Não hesitamos, pegamos cordas e lanternas e fomos em ajuda dos atingidos. O fato nos assustou, mas não havia se convertido em nada muito sério. Aqueles indígenas sabiam o quão próximo da natureza se encontravam e o seu forte nível de relação com ela previa tais acontecimentos. Todos se divertiam na operação e faziam graça de muitas coisas. Cabia somente esperar o nível da água baixar. Os nossos esforços em interagir com as pessoas locais nos renderam não somente o carinho de alguns como uma noite mais confortável no chão de uma sala para refeições da pousada. Dormimos bem.
O outro dia seria um dia de aventura. Com a mochila nas costas e o polegar apontado para cima chegamos a um ponto na beira da estrada do qual poderíamos cortar pelos morros até uma vista do Monte Roraima, maravilha sobre a qual havíamos acordado de não deixar a região sem admirar. Abrimos caminho atravessando rios, pedras e morros até o ponto que pela noite daríamos o nome de Campo dos Vaga-lumes. Aí haviam três pequenas quedas d’água de uma cor transparente e uma imensidão de mosquitos que não permitiam um segundo de sossego fora da barraca. Era impossível ficar parado, mesmo com a ajuda de litros de repelente. Organizamos a área para as barracas e montamos tudo, nos banhamos ansiosos pela refeição.
Não demorou para cair a chuva e nos aprisionar por cerca de cinco horas dentro da barraca. Todo o caminho que havíamos percorrido agora era rio e formavam-se novas quedas d’água por todos os lados. Com a noite, a calmaria, o frescor, os restos da chuva e os vaga-lumes brilhando por todos os lados como se estivéssemos a deriva no espaço.
Quando alcançou umas quatro da manhã eu olhei lentamente para fora da barraca e vi que tínhamos companhia. O pássaro Kumara caçava alguns insetos nos arredores do acampamento. Um predador pequeno, mas altivo, com a cabeça e a ponta das asas e calda brancas em contraste com sua plumagem predominantemente marrom escuro. Voou ao meu menor movimento. Mas ele não seria o único a aparecer para nós naquele dia.

CONTINUA...
sobre isso
É sobre esta viagem que vamos falar; é sobre o desejo desta viagem;
desejos distintos; duas pessoas, uma viagem;
muitos desejos
transitam, dialogam, correm, saltam e mergulham em nós;
espírito; coração selvagem.
É sobre esta viagem que vamos falar; é sobre o ensejo desta viagem;
do momento exato; nem antes, nem depois.
Para onde vamos;
onde estamos quando de longe viemos;
o que a terra sugere ao espaço; o que acontece a cada
passo.
É sobre isso que vamos falar;
sobre isso que vamos.

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